Fotos: Fábio Pavan e Arquivo Pessoal/Divulgação O professor João Marcelino Campos promove, desde 2018, com estudantes do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental e do Ensino Médio do Sistema Municipal de Educação, o projeto de estímulo à leitura “Leio Livros para Poder Ler o Mundo”
Abril é considerado o mês do livro por abrigar datas fundamentais para a literatura, como o Dia Internacional do Livro Infantil (02 de abril), o Dia Nacional do Livro Infantil (18 de abril), celebrado na data de nascimento de Monteiro Lobato, e o Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais (23 de abril). O período celebra a leitura, a educação e autores renomados como William Shakespeare e Miguel de Cervantes, incentivando o conhecimento e a criatividade.
Em tempos em que a informação navega de maneira cada vez mais veloz e vertiginosa no rio de fluido virtual da internet, o hábito de abrir um livro e mergulhar em sua história, no seu universo, sem qualquer tipo de estímulo audiovisual, vai se tornando raro. Carregado de livros e nadando contra a corrente virtual, está um professor lageano de 62 anos, com voz e semblante serenos. João Marcelino Campos, Professor Chico para alguns, desenvolve desde 2018 um projeto de estímulo à leitura com estudantes do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental e do Ensino Médio do Sistema Municipal de Educação, o “Leio Livros para Poder Ler o Mundo”.
João Marcelino começou a lecionar em 2001 na Escola Municipal de Educação Básica (Emeb) Suzana Albino França, localizada no bairro Jardim Panorâmico. Antes disso, era responsável pelo almoxarifado de uma empresa privada. Com o objetivo de ingressar na sala de aula nunca deixou de estudar, até surgir a oportunidade. O projeto Leio Livros para Poder Ler o Mundo ganhou vida em 2018, enquanto trabalhava na Emeb Santa Helena, no bairro Copacabana. “Eu conduzia os alunos até a biblioteca. Lá, não indicava livros, eles escolhiam por conta própria. Também pedi para adotarem um caderno, no qual deveria ser registrado o título, nome e a nacionalidade do autor”, relata João Marcelino.
As atividades não ficavam restritas a anotações. “O estudante devolvia a leitura realizada recortando uma cartolina em forma de folha A4. Nela, registrava o título do livro e o parágrafo que mais havia despertado atenção”, relata. O professor Chico não se recorda do nome da obra, mas lembra qual foi o enredo que mais lhe chamou atenção. “Era a história de um jovem que sofria por amor. Ele sofria tanto que decidiu retirar o próprio coração, já que é o órgão que promove o sofrimento do amor. Ele tirou o coração e o guardou na gaveta. Com o passar do tempo se apaixonou por uma jovem. Mas como retribuir esse amor sem o coração? Ele partiu em busca desse coração que havia deixado na gaveta. Ao abrir percebeu que não batia mais e estava todo cheio de pelos”, descreve com entusiasmo.
Em 2019, na Emeb Osni de Medeiros Regis, no bairro Tributo, o projeto evoluiu para o Café Literário. “Os alunos foram convidados e cada um se prontificou em levar um bolo. A direção permitiu levar refrigerantes e todos contavam um pouco da história que haviam escolhido. Só que em paralelo, eu pedi para cada um levar um assunto que tivesse relação com a história do livro. Uma das alunas leu Rapunzel. No dia do Café literário, eu pedi para que ela levasse uma pesquisa sobre doação de cabelo para mulheres com câncer. Então ela narrou a história e depois ela finalizou com a pesquisa”, conta.
O professor explica a razão do pedido da pesquisa. “O que a Rapunzel mais tinha era cabelo, por isso eu pedi. Assim também foi com O Patinho Feio. O estudante que escolheu essa história levou uma pesquisa sobre criação de patos e marrecos no Brasil”, relata.
De acordo com o Professor Chico, o Projeto estimula os estudantes a exercitarem a leitura e escrita. “A literatura ajuda no letramento. O estudante passa a ter mais facilidade para produção de texto. Ao exercitar a produção textual narrativa, eles contam a história e conseguem produzir um texto, o que hoje em dia é bem complicado para muitos”, salienta.
Para incentivar a leitura, é necessário ser um grande leitor? O docente responde. “Eu estaria sendo hipócrita se dissesse não gostar bastante de ler”, relata. O educador diz não ter um livro preferido, nem um gênero em especial. “Eu leio desde história, sociologia, ficção, aventura, autoajuda, crônica, reportagem, editorial. Já li o sociólogo Domenico De Mase. Uma das frases que lembro dele até hoje fala que o ser humano é uma imperfeição, mas que apesar dessa condição merece elogios. Leio livros de história também. Já li o Yuval Noah Harari. Em uma de suas falas, ele disse que a violência ia ser banalizada, e, de fato, está sendo. Essa semana comprei o Mágico de Oz. Então é o livro que me escolhe”, destaca.
Ainda de acordo com João Marcelino, os livros podem ter um papel libertador. “A leitura nos torna nobres, em todos os sentidos. Quanto estamos mais informados, nos tornamos também mais críticos. Então, quem tem a informação não é manipulado tão facilmente”, ensina.
Para o secretário municipal da Educação, professor Dr. Cristian de Oliveira, iniciativas como a do Professor João Marcelino são o coração da educação pública em Lages. “Formar cidadãos capazes de interpretar e transformar a realidade ao seu redor é uma das grandes metas da gestão da prefeita Carmen Zanotto. O projeto Leio livros para Poder Ler o Mundo vai além da sala de aula. Ele dá aos nossos jovens do Ensino Fundamental e Médio a ferramenta mais poderosa para a cidadania, a autonomia crítica”, ressalta o secretário Cristian.
Em 2025, na Emeb Mutirão, do bairro Habitação, o professor João Marcelino deu sequência ao Projeto. Ele utilizou música na execução das atividades, além de realizar leituras compartilhadas. “Os alunos contavam as histórias, porque muitos ainda têm dificuldade para ler em sala de aula. De que maneira trabalhei isso? Eu levava música, harmonizava o ambiente, promovia meditação e ficávamos alguns segundos em silêncio. Depois vinha a música, que poderia ser pagode ou uma canção atual. Ao final, realizava a leitura compartilhada das obras”, relata.
Já na Emeb Itinerante Maria Alice Wolff, os desafios foram novos, como a ausência de uma biblioteca formal. Os resultados também foram surpreendentes. “Além da minha pasta, diário e livro didático, eu levava os livros. Na Itinerante foi feito até um podcast; o estudante contava a história no celular e depois ouvia a própria fala. Assim, alguns deles, que tinham certa dificuldade em realizar leituras, sentiam-se emocionados ao ouvir a própria voz narrando uma história”, descreve. Na Emeb Itinerante, o Professor Chico descobriu leitores vorazes. “Teve um aluno que leu dez livros em um mês. Para quem lia mais, eu entregava até troféu”, conta.
Mas para o Professor Chico, o maior prêmio é a felicidade dos jovens e a alegria de ter colaborado com a ampliação dos seus horizontes. “A gente presencia o brilho nos olhos quando eles leem. A autoestima se eleva e eles melhoram não só em Português, mas também nos outros componentes curriculares. Eles acabam se conhecendo e percebem que têm capacidade. Tudo isso é promovido pela leitura”, finaliza.
Texto: Glaucir Borges
Fotos: Fábio Pavan e Arquivo Pessoal/Divulgação
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